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Terramoto de Lisboa e a Literatura

(…)
A terra estava em fúria, qual um touro varado por petardos numa arena. Muitos iriam realmente interpretar aquelas convulsões como revolta moral da natureza, ante os pecados que os humanos andavam cometendo. Muitos acharam que o bom Deus do Papa castigava Lisboa pela sua submissão aos heréticos ingleses. Equivalente enlevo punitivo ocupava os jornais dos protestantes. Tinham sido poupados quase todos, contando entre eles menos de cem vítimas, porque em boa verdade aquele desastre se dirigia apenas aos papistas, como um solene aviso do senhor.
Lillias julgou-se em cima de um ser vivo, porque parecia haver um sentimento na forma como o chão se debatia. Aquilo que dentro dele se revolvia levava-o a rugir, ferido de morte. Escancarou uma enorme goela na encosta onde Lillias havia de encontrar-se, se tivesse avançado um minuto antes. A lama negra fumegava, como o bolo de alguma monstruosa digestão. O enxofre vinha directamente arremessado do inferno. (…)
Com o segundo abalo, desistiu. Sentou-se a espera de que o chão, por baixo dela, se abrisse, e a mão dos mortos se estendesse e a puxasse para a sua companhia. A sua educação religiosa fora apenas formal, feita de ritos e certo despotismo de palavras. Não esperaria ver no fim do mundo o supremo Juiz cobrindo os céus.
Dava por si sozinha e desvalida, uma pequena criatura mais, no meio das ervas e dos roedores. Ouvia os gritos da cidade ao longe. Corriam pelo ar, em vez dos pássaros que tinham procurado o vale de Alcântara e não mais se mexeram todo o dia. Lillias pensou que os vermes sairiam dos túneis subterrâneos. Pôs-se de pé, para que eles a não tomassem por um cadáver. Viu no horizonte, acima de Lisboa, uma poeira imóvel, como um escudo. Mas, no campo deserto, o sol mantinha a sua desusada intensidade. Lillias sentia sede. (…)
Foi alcançada pelos fugitivos.

‘Lillias Fraser’ – Hélia Correia

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A terra tremeu em Lisboa

[…]
Uma delgada nuvem, que se estendia, a todo o seu comprimento como que em linha reta, estava patente no céu. Não se viam pássaros em lado algum, nem nas copas das árvores, nem tão-pouco sobre os telhados. As vergas dos navios estavam despovoadas. Sobre as ondas do Tejo nem uma única gaivota se deixava embalar. As vagas, porém, começaram de repente a embater com grande força no cais, era como se uma tempestade se anunciasse.
Só que não soprava uma brisa, por pequena que fosse.
Era sábado. dia 1 de novembro do ano de 1755. Tal com todos os anos, por ser Dia de Todos os Santos, a população acorria às igrejas, diante de cujas portas se formavam grupos de senhoras bem vestidas. As crianças provocavam-se umas às outras e eram repreendidas pelos respetivos pais. A cada passo que davam, os anciães apoiavam-se nas suas bengalas e ficavam de cabeça caída. Os nobres chegavam nos seus coches. (…)
Na rua lá fora, os coches passavam e faziam-se ouvir. Dezenas e dezenas deles. Ou então…não eram coches.
Lançou-se ao chão e tateou-o. O edifício estremecia.(…)
– Um tremor de terra?
Então, como se barris de pólvora tivessem explodido, ouviu-se um estrondo e ocorreu uma forte sacudidela. Antero olhou para o teto. Fragmentos de reboco caíram e o pó tapou-lhe os olhos. Pestanejou e passou a mão pelo rosto para limpá-lo. Lá fora as pessoas gritavam em pânico. (…)
Então o ribombar regressou. O chão tremeu, e foi então que um gigante por três vezes bateu com o seu enorme punho sobre a Terra, o que fez com que Antero desse involuntariamente um salto. Choveram pedras do teto. (…)
Na rua, por todo o lado, os prédios ruíam. Os telhados davam de si. As paredes caíam. O barulho era ensurdecedor. As pessoas fugiam do interior das casas, com as mãos agarravam pequenas figuras de santos, pressionavam-nas contra o peito e, com rostos desfigurados pelo medo, suplicavam por misericórdia. Algumas delas lançavam-se dos andares superiores dos edifícios que se desmoronavam, caiam na rua e aí ficavam, de pernas partidas.(…)

in ‘A Jesuíta de Lisboa’ (Titus Müller)