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Terramoto de Lisboa e a Literatura

(…)
A terra estava em fúria, qual um touro varado por petardos numa arena. Muitos iriam realmente interpretar aquelas convulsões como revolta moral da natureza, ante os pecados que os humanos andavam cometendo. Muitos acharam que o bom Deus do Papa castigava Lisboa pela sua submissão aos heréticos ingleses. Equivalente enlevo punitivo ocupava os jornais dos protestantes. Tinham sido poupados quase todos, contando entre eles menos de cem vítimas, porque em boa verdade aquele desastre se dirigia apenas aos papistas, como um solene aviso do senhor.
Lillias julgou-se em cima de um ser vivo, porque parecia haver um sentimento na forma como o chão se debatia. Aquilo que dentro dele se revolvia levava-o a rugir, ferido de morte. Escancarou uma enorme goela na encosta onde Lillias havia de encontrar-se, se tivesse avançado um minuto antes. A lama negra fumegava, como o bolo de alguma monstruosa digestão. O enxofre vinha directamente arremessado do inferno. (…)
Com o segundo abalo, desistiu. Sentou-se a espera de que o chão, por baixo dela, se abrisse, e a mão dos mortos se estendesse e a puxasse para a sua companhia. A sua educação religiosa fora apenas formal, feita de ritos e certo despotismo de palavras. Não esperaria ver no fim do mundo o supremo Juiz cobrindo os céus.
Dava por si sozinha e desvalida, uma pequena criatura mais, no meio das ervas e dos roedores. Ouvia os gritos da cidade ao longe. Corriam pelo ar, em vez dos pássaros que tinham procurado o vale de Alcântara e não mais se mexeram todo o dia. Lillias pensou que os vermes sairiam dos túneis subterrâneos. Pôs-se de pé, para que eles a não tomassem por um cadáver. Viu no horizonte, acima de Lisboa, uma poeira imóvel, como um escudo. Mas, no campo deserto, o sol mantinha a sua desusada intensidade. Lillias sentia sede. (…)
Foi alcançada pelos fugitivos.

‘Lillias Fraser’ – Hélia Correia

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Uma atividade na biblioteca

Os alunos da professora Josefa Costa, integrados na turma do 2º ano do Curso Vocacional Secundário, realizaram (quarta-feira passada) a leitura expressiva do conto de Manuel Alegre – ‘Uma estrela’. Foi aproveitado o ambiente da quadra natalícia existente na biblioteca escolar, que a nosso ver criou nos alunos um maior entusiasmo. A professora e a bibliotecária proporcionaram um pequenino lanche aos alunos no final da atividade e, logo após, foram distribuídos os prémios para os seis alunos que demonstraram mais desenvoltura na concretização dos objetivos. Fez também parte do júri o professor Miguel Carvalho, colaborador da biblioteca no presente ano letivo.