Archive | Março 2016

Feliz Páscoa

Boa Páscoa para todos!...

                                                                                       Boa Páscoa para todos!…

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Para o ‘Dia da Poesia’

Não me importo com as rimas. Raras vezes

há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.

Penso e escrevo como as flores têm cor

mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me

porque me falta a simplicidade divina

de ser todo só o meu exterior.

Olho e comovo-me,

Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado,

e a minha poesia é natural como o levantar-se o vento…

Fernando Pessoa (Alberto

 

Um poema a condizer com o dia

Na morte de Marilyn

Morreu a mais bela mulher do mundo
tão bela que não só era assim bela
como mais que chamar-lhe marilyn
devíamos mas era reservar apenas para ela
o seco sóbrio simples nome de mulher
em vez de marilyn dizer mulher
Não havia no fundo em todo o mundo outra mulher
mas ingeriu demasiados barbitúricos
uma noite ao deitar-se quando se sentiu sozinha
ou suspeitou que tinha errado a vida
ela de quem a vida a bem dizer não era digna
e que exibia vida mesmo quando a suprimia
Não havia no mundo uma mulher mais bela mas
essa mulher um dia dispôs do direito
ao uso e ao abuso de ser bela
e decidiu de vez não mais o ser
nem doravante ser sequer mulher
O último dos rostos que mostrou era um rosto de dor
um rosto sem regresso mais que rosto mar
e toda a confusão e convulsão que nele possa caber
e toda a violência e voz que num restrito rosto
possa o máximo mar intensamente condensar
Tomou todos os tubos que tinha e não tinha
e disse à governanta não me acorde amanhã
estou cansada e necessito de dormir
estou cansada e é preciso eu descansar
Nunca ninguém foi tão amado como ela
nunca ninguém se viu envolto em semelhante escuridão
Era mulher era a mulher mais bela
mas não há coisa alguma que fazer se certo dia
a mão da solidão é pedra em nosso peito
Perto de marilyn havia aqueles comprimidos
seriam solução sentiu na mão a mãe
estava tão sozinha que pensou que a não amavam
que todos afinal a utilizavam
que viam por trás dela a mais comum imagem dela
a cara o corpo de mulher que urge adjectivar
mesmo que seja bela o adjectivo a empregar
que em vez de ver um todo se decida dissecar
analisar partir multiplicar em partes
Toda a mulher que era se sentiu toda sozinha
julgou que a não amavam todo o tempo como que parou
quis ser até ao fim coisa que mexe coisa viva
um segundo bastou foi só estender a mão
e então o tempo sim foi coisa que passou.

Ruy Belo

Escritor do mês

Mário Zambujal

Mário Zambujal

Mário Joaquim Marvão Gordilho Zambujal nasceu a 5 de março de 1936, em Moura, no Baixo Alentejo. Viveu a sua adolescência no Algarve, onde iniciou a carreira jornalística. Tornou-se conhecido como jornalista desportivo na RTP e colaborou em programas radiofónicos. Foi jornalista do jornal ‘A Bola’. Foi, também, autor de guiões de algumas séries da televisão (Nós, os Ricos; Lá em casa tudo bem, …).
De entre as suas obras destacam-se: ‘Crónica dos bons malandros’ e ‘Histórias do fim da rua’.

Como é habitual, o folheto em suporte papel, é de distribuição gratuita na biblioteca.